12 junho 2026

19 anos e oito meses no ar

F. Ponce de León

Nesta sexta-feira, 12/6, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e oito meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e sete meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Charles T. Tart, Herbert Dingle, Jaron Lanier, Ludwig Buckup, Mervyn Peake, Neil McInnes e Nicholas Lenssen. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Käthe Kollwitz, Modesto Brocos e Philipp Otto Runge.

10 junho 2026

Milagre ou escândalo?

Felipe A. P. L. Costa

Nos últimos dias, diversos veículos de imprensa (nacionais e estrangeiros) fizeram algum alarde em torno da notícia de que um guia xerpa, desaparecido havia cinco ou seis dias, foi ‘encontrado’ com vida em Sagarmatha (Everest) [1]. Não foi um milagre, como alguns disseram, foi um escândalo. Um escândalo de múltiplas facetas [2].

Para começar, o guia – conhecido como Hillary Dawa Sherpa, de 52 anos – não foi achado; ele veio se arrastando montanha abaixo (ficou mais de dois dias preso em uma fenda). Entre o acampamento principal da Face Sul (5.364 m de altitude) e o topo do Everest (8.848 m), há quatro bases escalonadas. Quando foi visto pela última vez antes de ser dado como morto ou desaparecido, em 29/5, Dawa estava acima da base 3 (7.500 m). Quando foi visto de volta, em 4/6, estava a 5.500 m de altitude, abaixo da base 1 e a caminho do acampamento principal. Foi visto e atendido por colegas; em seguida, foi levado de helicóptero até o hospital, em Catmandu.

O escândalo maior é o fato de que a empresa para quem Dawa estava a trabalhar não providenciou o envio de uma turma de resgate – desde o primeiro dia (29), ao que parece, o guia foi dado como desaparecido. E os relatos informam que todos na montanha sabiam que um xerpa havia sido deixado para trás ainda com vida. (Tendo sido informada do desaparecimento, a família já estava a preparar o funeral. Com os relatos posteriores e a repercussão do caso, a família anunciou que pretende processar os responsáveis pelo escândalo.)

Para a indústria do turismo que opera na região, a vida de um xerpa parece valer tanto quanto um tubo de oxigênio. Não foi o primeiro caso e não será o último. A grande diferença foi que, dessa vez, o guia sobreviveu [3]!

*

NOTAS.

[1] Com pouco mais de 147 mil km2 de área territorial (pouco menos que os quase 149 mil km2 do Ceará), o Nepal está espremido entre o sudoeste da China e o nordeste da Índia. O relevo do país é dominado pelos gigantes da cordilheira dos Himalaias, incluindo Sagarmatha (8.848 m de altitude), a maior elevação montanhosa da Terra. Entre nós, brasileiros, o Monte Sagarmatha (mãe do universo, para os nepaleses) é mais conhecido como Monte Everest – alusão a George Everest (1790-1866), cartógrafo inglês que trabalhou na região. Os tibetanos chamam a montanha de Chomolungma (deusa mãe do mundo) e os chineses de Qomolangma Feng (mãe sagrada das águas). Em maio de 1953, o neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o xerpa Tenzing Norgay (1914-1986) foram os primeiros seres humanos a pisar no topo do Everest.

[2] Para uma descrição mais detalhada do que houve, ver aqui.

[3] Faz tempo que o Everest se converteu em uma Disneylândia: gentes do mundo inteiro se mostram dispostas a (i) esperar na fila (são ao menos três: a fila de espera pelo visto do governo nepalês, a da agência de turismo contratada e a fila física, real, durante a própria escalada); e (ii) pagar algumas dezenas de milhares de dólares para ir ‘passear’ na montanha mais alta da Terra. (Só na atual temporada, mais de 1 mil pessoas escalaram o Everest, um recorde; foram registradas ao menos cinco mortes.) Como outras modalidades do turismo, o turismo de aventura é uma praga insidiosa. (A experiência negativa mais próxima que eu tive talvez tenha sido a visita que fiz – a convite de alunos – ao Parque Nacional Foz do Iguaçu, em novembro de 2006. Foi só congestionamento e barulho: muita gente, muitas lanchas, muitos sobrevoos de helicóptero; em resumo, um filme de horror.)

* * *

08 junho 2026

Desafiando o lixo nuclear

Nicholas Lenssen

Em dezembro de 1942, o relacionamento entre a humanidade e a natureza mudou para sempre. Trabalhando secretamento num laboratório militar subterrâneo em Chicago, Enrico Fermi, físico italiano, reuniu urânio suficiente para provocar uma reação de fissão nuclear. Desintegrando o átomo, ele liberou a energia inerente que mantém ligada toda a matéria. A descoberta de Fermi transformou, quase que de imediato, a própria guerra, mais tarde revolucionou a medicina e criou esperanças de se obter eletricidade a um preçoo “tão baixo que não se poderia calcular”. Mas sua experiência também gerou um pequeno fardo de materiais residuais radioativos que permanecerão numa forma perigosa para a saúde humana durante centenas de milhares de anos.

Fonte: Lenssen, N. 1992. In: Brown, L. R., org. Qualidade de vida – 1992. SP, Globo.

06 junho 2026

Estados de consciência

Charles T. Tart

Uma das tendências mais significativas da cultura americana atual é aquela que pode ser considerada uma tendência anti-intelectual ou anticientífica. Duas de suas principais manifestações são o uso extraordinariamente difundido de drogas psicodélicas, tais como a maconha e o LSD, e o interesse por elas que tem crescido de maneira assustadora, em várias religiões místicas e orientais. Os estados de consciência produzidos por drogas ou pela meditação são fenômenos dos quais sabemos, cientificamente, muito pouco. O volume da pesquisa sobre estes assuntos, embora esteja se desenvolvendo rapidamente, tem sido bastante pequeno em relação à extensão do envolvimento social que tem havido neles. Além disso, pode-se afirmar com segurança que muito dessa pesquisa, embora bem-intencionada, é relativamente insignificante se comparada à natureza dos fenômenos.

Fonte: Weil, P. & mais 4. 1978. Mística e ciência. Petrópolis, Vozes. Trecho de artigo publicado em 1972.

05 junho 2026

A redenção de Cam


Modesto Brocos [y Gómez] (1852-1936). A redenção de Cam. 1895.

Fonte da foto: Wikipedia.

03 junho 2026

Um livro ilegível pela intensidade

António Ramos Rosa

Um livro ilegível pela intensidade
a cal do muro as unhas a ferrugem
as obscuras qualidades os acordes
que nomeiam o secreto e o longínquo
o cenário das folhas como orquestras
a miséria do nome o seu fulgor de árvore
o dédalo do corpo sob a águas metálicas
a pupila e a sede a pupila da sede
os desastres das palavras os seus motins errantes
um país que se oferece entre obscuras árvores
um corpo e outro corpo os sopros os rumores
que o vento traz entre os arbustos brancos
Nenhum gesto divide a redondez nocturna
em que a palavra habita a nascente secreta

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1988.

02 junho 2026

Realidade virtual

Jaron Lanier

[Greco] – E por que temos essa necessidade de criar outras realidades?

[Lanier] – Por causa das nossas limitações. Somos criaturas muito estranhas. Crescemos com nossos cérebros e corações capazes de imaginar qualquer universo, mas nosso corpo pode ser somente humano. Queremos nos conectar mutuamente, mas nossos meios para fazer isso são muito limitados. Somos separados uns dos outros pelos nossos corpos. Podemos trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas. Mas de alguma forma queremos mais, queremos estar mais ligados. Queremos ser capazes de criar qualquer universo na nossa cabeça de que nosso coração goste. Lutamos sempre contra as limitações da realidade física.

Fonte: Greco, A. 2001. Homens de ciência. SP, Conrad.

31 maio 2026

Totalis perfectum

F. Ponce de León

Nós não somos
humanos ordinários;
somos diferentes,
somos melhores.

Melhores que os árabes,
melhores que os persas,
melhores que os palestinos.

Espionamos,
chantageamos,
torturamos.

Nosso Mestre é o ódio.
Matamos mulheres e crianças
e nem assim a vergonha nos alcança.

Como os vikings de outrora,
vivemos a pilhar – terras, água, comida.
E seguimos matando.

Podemos matar qualquer um,
em qualquer lugar,
a qualquer momento.

Somos filhos da Perfeição.

29 maio 2026

To live at all is miracle enough

Mervyn Peake

To live at all is miracle enough.
The doom of nations is another thing.
Here in my hammering blood-pulse is my proof.

Let every painter paint and poet sing
And all the sons of music ply their trade;
Machines are weaker than a beetle’s wing.

Swung out of sunlight into cosmic shade,
Come what come may the imagination’s heart
Is constellation high and can’t be weighed.

Nor greed nor fear can tear our faith apart
When every heart-beat hammers out the proof
That life itself is miracle enough.

Fonte (v. 1, em port.): Dawkins, R. 2000. Desvendando o arco-íris. SP, Companhia das Letras. Poema publicado em livro em 1950.

28 maio 2026

Tempo, relógios, salsichas

Herbert Dingle

Na verdade, o tempo, o rio que não para de fluir, tem tanta relação com a existência dos relógios como com a das salsichas.

Fonte: Davies, P. 1999. O enigma do tempo. RJ, Ediouro. Frase extraída de livro publicado em 1972.

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